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O enraizamento do crime organizado nas comunidades locais da América Latina: uma revisão das evidências existentes e recomendações de políticas públicas

Elena Butti
Albert Souza Mulli

Este documento examina as diferentes abordagens usadas por grupos criminosos organizados na América Latina e no Caribe (ALC) para se inserirem nas comunidades locais. Com base em uma revisão sistemática da literatura acadêmica e cinzenta, o documento argumenta que as taxas de homicídio e outros indicadores de violência são muitas vezes baixos face o grau de inserção criminosa, já que os grupos criminosos organizados costumam estabelecer e consolidar relações com as comunidades locais (e com o Estado) por meio de uma variedade de práticas diferentes que respondem às necessidades econômicas e de governança das comunidades.

Para explorar essas dinâmicas, o documento propõe uma estrutura analítica que identifica três esferas distintas, porém sobrepostas, de interação entre o crime organizado e a comunidade: a esfera reguladora (que inclui resolução de conflitos, regulamentação moral e justiça informal), a esfera econômica (oferta de emprego, prestação de serviços, acesso a mercados informais e ilícitos e funções assistenciais) e a esfera político-cívica (infiltração na política local,  em processos eleitorais e regulamentação da sociedade civil). A análise mostra que essas práticas muitas vezes geram formas de legitimidade local e contratos sociais que borram as fronteiras entre autoridade estatal e não estatal, legalidade e ilegalidade, e coerção e consentimento, com grupos criminosos organizados frequentemente assumindo funções tradicionalmente associadas ao Estado para ganhar legitimidade e impor a ordem local. O documento demonstra ainda que os grupos criminosos são capazes de fazer isso não apenas devido à ausência do Estado – como frequentemente se supõe – mas, muitas vezes, por meio de conluio e cooptação de instituições estatais.

Com base na análise, o documento analisa as evidências disponíveis sobre intervenções de políticas públicas que se mostraram empiricamente promissoras ao interromper ou impedir a expansão territorial do crime organizado nas três esferas. As evidências sugerem que as abordagens tradicionais e as baseadas na lógica da segurança, que buscam interromper e "expulsar" o crime organizado ao "trazer o Estado de volta", muitas vezes podem aprofundar seu enraizamento nas comunidades locais e até piorar a violência. Em vez disso, conclui o artigo, o aumento da efetividade requer abordagens mais seletivas e sequenciais, que diferenciem os diferentes tipos de grupos criminosos e se concentrem na redução da dependência das comunidades deles.

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